terça-feira, 23 de agosto de 2016

Sobre o adeus

para o menino com nome de anjo

Quero começar dizendo que faltou dizer...
Faltou dizer que não é somente a minha vênus que é regida por escorpião, mas meu mercúrio também, dizer as coisas é muito difícil pra mim...

Quero deixar claro que isso aqui é sim uma tentativa de adeus, do adeus que eu não queria dar, mas que é preciso fazer!

Quero dizer que faltou explicar em palavras tudo que eu te contei em silêncio, apenas tocando você e que gozar com o corpo é mais difícil, mas que minha alma sempre te teve com prazer.

Faltou dizer que eu também te admiro e adorava te escutar falar, o som da sua risada e principalmente que sempre foi delicioso estar quieta com você.

Faltou dizer que eu queria ficar junto, mas que eu não tinha pressa, só queria saber o que esperar de você.

Faltou dizer que foi em 1946... Eu ensaiei algumas vezes retomar aquela conversa sobre a Nise com você...

Olhando agora parece que faltou tanto, mas na verdade só me faz falta você!

Ainda estamos seguindo nossos corações?
Eles sabem mesmo para onde estão indo?

Como eu disse no começo, pode não parecer, mas isso aqui é sobre adeus... 


segunda-feira, 25 de julho de 2016

Preta

Quem oferta o peito pra mulher preta?
Quem oferta o peito para aquela que alimentou a nação toda no próprio seio com leite e sangue?
Quem oferta colo pra mulher preta que carregou nos braços os filhos pretos, brancos e índios, que embalou tantos sonos e secou tantos prantos?

Quem ama essa mulher preta?
Quem seca seu choro preto?
Quem cheira o seu suor preto?
Quem entende sua dor preta?
Quem excita seu corpo preto?
Quem gera, ou melhor QUEM CRIA seus filhos pretos?
Quem???

E não tente me dizer que não existe a solidão preta, da preta
Talvez se você estivesse realmente perto, realmente junto... Mesmo assim você não saberia o que essa mulher sente, mas quem sabe parando de negar você perceba!

terça-feira, 7 de junho de 2016

como faz?

O que fazer com todos os textos que escrevi, com os quadros que pintei, com os presentes que comprei e agora temo nunca te entregar?

Pra quem contar dos filmes que vi, da poesia que li, da música que escutei, do disco que acabam de lançar?

As caixas estão cheias, vazam pelas barragens
Sussurro pro vento e te encontro por pensamento
Relembro o primeiro beijo
Espero
Desejo
Rever seu olhar de mar
Sentir seu corpo no meu
Misturar

terça-feira, 24 de maio de 2016

Acende a luz?

Eu preciso da intimidade, de luz acesa, de porta e livro aberto, eu preciso ver
Eu preciso do afeto, da mão pesada, do olhar verdadeiro, da verdade inteira, da entrega
Eu não sei gozar de outro jeito precisa ser completo eu só sei ser inteira não me satisfaz uma parte, uma borda, uma metade, um teco, uma hora
Eu preciso ver o fundo ir do raso pro profundo, preciso trocar, misturar, esfregar
Eu preciso da leveza, mas preciso desta ilusão de ter certeza
Vem com a língua quente, vem mergulhar na gente, vem se envolver e deixa pra lá essa historia de ser apenas envolvente
Sai das letras e vem pros atos, perde o controle se refaz nos meus braços e abraços
Vem tomar mais um gole e dar mais um trago
Joga fora o conta gotas e jorra no meu vaso

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Voltar

Vou voltar...

Bateu aquele calor do meio da noite, aquele calor sabe? Aquele que me tira da cama e faz pegar o computador, que rouba o sono, resseca a boca e logo depois a chuva cai... Não, você não sabe por que eu ainda não te falei sobre isso

Eu vou voltar...

Tô há dias com aquela dor de cabeça chata, sabe? Aquela que me vira pra lá e pra cá e que faz parecer que meu travesseiro é de tijolos e... Não, você não sabe por que eu também não te contei sobre isso, você não sabe por que não está aqui

Deitar a noite inteira...

Aquela ânsia que mexe com o meu estômago, palavras bagunçadas querendo sair, sentimento gritando confuso, peito apertado, mãos transpirando... Resolvi voltar, eu nunca disse que seria pra sempre que eu iria partir

Dispensa essa vadia...

No rádio, como sempre tem uma canção no repeat pra me embalar, pra me inspirar, pra te forçar a lembrar de mim sempre que a ouvir... Calma, mais devagar... toca em mim, toca uma canção no seu violão pra mim

De novo e sempre feito viciada...

Eu mudei, mas a casa vai continuar assim! Mexi nos discos, nos álbuns, nas gavetas, na dispensa, mas isso é sobre mim acima de tudo é sobre mim
Eu não tenho mais medo, ou eu tenho... foda-se!
Eu estou aqui, também estou aqui e tô só começando


Me espera, espera...



quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Para um amor em Jacareí

Uma vez conversando com a Leona perguntei a ela porque a maioria dos textos são tristes. A gente quase nunca sabe admitir estas respostas. Que necessidade geral essa de derramar para o mundo todo saber o que passa aqui? Vontade de alguém nos descobrir e se compadecer?
Uma vez ele veio aqui e saiu. Disse que visitava sempre, até me questionou. Tempo passou e ele partiu.

Mas vez ou outra sei que ele está por aqui. Então pra você que vem e vai nesse telefone de via única: beijos pra caravana de Jacareí!

Carta pública

Angeli levantou do sofá e foi ver que cheiro horrível era aquele que vinha do quintal. Não morava perto de brejo ou fossa “nem é São Paulo pra feder assim” pensou aquela cabeça ruiva.
Mas que merda! Angeli virou de lá, remexeu daqui... e a porcaria do cheiro, nada de sumir!
Grudou a cara no chão, não estava nem aí que seus vizinhos burgueses a achassem maluca e foi cheirando toda a grama, até que viu, três pontinhos bem miúdos... Pareciam vírgulas... Não! Eram sementinhas.
Angeli era moderna e descolada, mas nascida no interior, meio do mato, sabia reconhecer uma erva daninha quando a encontrava, e aquelas eram sementes malignas. Que coisa... Angeli sempre se deu bem com a vizinhança, quem estaria querendo tirar o brilho lindo do seu gramado azul?
Sem pensar catou as reticências, digo, as sementinhas e levou pra longe, colocou dento de uma garrafa bem tapada e foi levar pra desaguar tudo numa fonte que juravam ser bem distante!
Mentira! 
Angeli ficou de boca aberta quando voltou e viu um sofá, um cachorro, roupas velhas e e um monte de lixo no seu jardim!
“Poxa vida... já tentei ser simpática e educada, mas tão querendo mesmo ver se saio de mim!”
Não teve dúvida, passou a mão no papel e caneta e escreveu em letras amáveis: "querido amigo, poderia por favor levar seu entulho para outro local que não fosse aqui? Bejin Ageli"