quarta-feira, 11 de outubro de 2017

invento da dúvida ou cicatriz

sou seu agora
nem última
não fui a primeira
sou sua agora
pedaço
parte
couro que raspa, enrosca
olhar que chama, incendeia
fura
gosto
gósto!
se tem, quando tem
suspiro úmido
volume por dentro
arde, tira e põem
cospe!
o que é?
não foi, nem será
paixão não dura tempos, não é eterno
amor é invento 
é criação pra suportar
é mar de incerteza, vazio no meio da beleza
é corte de louça
cicatriz que nunca cura

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

ensaios sobre as estações ou eu sou o rio

Nós resistimos!
Sobrevivemos a cada morte
Sangramos com cada ruptura
De braços e peito abertos, assistimos pessoas partirem, páginas virarem, flores murcharem, folhas caírem...
O Outono veio com a impiedade necessária abrir a minha mão e gritar com sua voz rouca e seca "deixa seguir, deixa o fluxo do rio correr!"

Ainda de joelhos senti o frio do chão percorrer meu corpo, tocar meu coração, fechar meus olhos e a minha boca: me engolir!
Me fiz silêncio
Me fiz solitude
Me fiz vazio
Me fiz raíz
Só aí pude ser completude e imensidão!
Generoso, o Inverno me abraçou de pé, me fez sentir amor e sussurrou "o rio ainda vive, mesmo quando não se pode ver!"

Nós resistimos!
E agora tímida e merecidamente sinto as cores, cheiros e sabores da primavera me envolver...
Seja bem vinda, vem acontecer!

quinta-feira, 29 de junho de 2017

ainda era, mas foi também

Eu ainda pensava em você e te escrevia
Ainda pensava, não dá mesma forma ou com a mesma força... 
Eu peso
Avalio!
Já não era mais o tempo todo nem o dia inteiro 
Vez ou outra, na sua distração cotidiana você me "curtia" também, através duma foto que postava ou num texto que eu gostava, mas não redigia...

Eu ainda me pegava achando que você chegou no dia certo, mas que talvez tenha ido na hora errada e nos faltava coragem ou descendência de aceitar o agora e simplesmente deixar ir por completo
Ser hoje!

Ainda era muito difícil entender que eu não agi errado, fique tranquilo, você também não
Você não fez nada
Eu faço!
Faço frequentes séries de "seja bem vindx" pra vida e a eterna prática de aceitar que se já deu (ou não deu) pra quem "está" a porta de saída fica logo alí

Fechar uma caixa sozinha é mais difícil, mas depois de tanto silêncio e vazio fica fácil entender que não tem nada dentro dela pra mim ou que eu deva guardar.

Ainda era eu
Mas agora sou só pra mim

quinta-feira, 8 de junho de 2017

caso esteja aí

Escrevi pra você, porquê não tivemos coragem de nos olhar nos olhos e se despedir
Deixei ali, junto das lágrimas não choradas, as palavras não ditas
Eu me virei e sei que você também não olhou pra trás
A gente apenas resolveu que era melhor assim
Seguir
Passos tontos
Mente perdida
Peito angustiado
Partes ainda quentes, pulsantes
O coração partido
O sorriso fingido
O beijo não dado
O adeus implícito
O sentimento não trocado
O violão arranhado
Retratos empoeirados
Lençóis amassados
Lembranças do gosto, do cheiro na tua pele
Gemidos
O dia foi passando
Foi no mês passado

https://youtu.be/CflFhqEzoEY

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Éssepê

(H)á pertos
Há partos
O deslocamento imenso cotidiano
Aqui, ali, pra lá
Longamente sozinhos.

Poesia efêmera, mortal
Invisível, sutil
O aquilo que ninguém vê
Enquanto a cidade corre com pressa e medo
O aquilo que ninguém se permite dizer que sente.

Cães tomam sol na barriga, patas abertas
Cadelas
Pernas e bocas abertas pro sol penetrar
As entranhas da cidade destruída distraída
Que corre com medo e com pressa
Sem nem saber onde quer chegar

quinta-feira, 13 de abril de 2017

gogóia

Meu cheiro é doce
Não se confunda com minhas palavras e temperamento fortes
Não se assuste com minha alma de faca e fogo
Fique se quiser, eu quero!
Mas se quiser partir vá sem demora, agora, na sua hora
Você pode, você deve!
Meu gosto é doce
Rapa dura não é mole
Eu sou raíz
Eu sou pimenta
Eu sou colo
Peitos, pelos, leite, palavras, pensamentos
Imensidão, desejos, lágrimas, sorrisos
Sou a linha fina que rompe
Rio 
Remédio e veneno
Sou bagunça e movimento ainda que no mais absoluto silêncio

quarta-feira, 12 de abril de 2017

sós

Não estamos sós no que sentimos
No bem querer que perdura, como queremos
E nas lembranças boas das conversas, risadas, músicas, cheiros, amor, beijos...
Não estamos sós nem com a distância
E mesmo sem um bis nós nos vemos
Via sonho e pensamentos 
Conversamos
Na memória, na delícia da memória 
Revivemos
E se nunca mais colocarmos os olhos, mãos, saliva e gozo um no outro
Ainda sim
Não estaremos sós
Seguimos juntos acarinhando o bem de dentro